Eu nunca consigo ficar de pé por muito tempo, já consegui anteriormente, mas hoje não; as minhas pernas enfraqueceram na mesma proporção que meu coração e eu não vejo solução para isso ainda. É louco pensar desta forma, eu sei. Porém há um momento em que acordamos e imediatamente vem-nos a realidade crua e ardente, queimadora de nossos sonhos e pensamentos mais comuns. Quando esta chega, traz consigo uma imensidão de informações que inicialmente parece nos sufocar... ah, deixe-me falar por mim, Ego.
Eu acordei e a realidade estava do meu lado, sorrindo para mim; não sei se por felicidade ou por sarcasmo, se por benevolência ou maldade... só sei que estava lá. E quando ela chegou, a única coisa que pude fazer foi conformar-me, pois a realidade tem o quíntuplo do meu peso e eu não posso competir com ela. Insistir em conviver nos sonhos é o mesmo que gastar o dinheiro que não tem ou tentar viver as aventuras que não pode.
Eu estive assim por muito tempo, até agora. Por que é sempre assim, tento viver nos meus sonhos uma realidade que está fora deles e que eu jamais consegui alcançá-la. É a ilusão quem usurpa minha imaginação e eu me sinto feliz por alguns instantes quando estou de olhos fechados.
Entretanto, é ao abri-los que eu me sinto eu, com as características mais imbecis e absurdas, mas que são concretas, infelizmente.
Eu sou um bobo mesmo!
Me impressiono com tudo e fico assim, sem ter quem perceba minha angústia interna e rasgadora do meu espírito assustado.
É uma mania terrível que eu tenho de esperar que as pessoas se impressionem comigo na mesma medida! Horror! Isso nunca acontece! Nunca aconteceu!
Você não acredita no que eu digo. Por isso não digo nada. Você não me enxerga como algo a mais, ainda. Sabe-se lá quando esse ‘ainda’ acabará. Por que a vontade que se instala como parasita em meu peito é quem me impulsiona a falar de amor, mas eu, por mim mesmo não falaria, ele nunca me trouxe sorte.
Mas no breu dessa tempestade da qual você não tem nada a ver, é assunto mal resolvido que tenho com o meu coração, eu fico pensando numa possibilidade de ver o jogo virar e eu vencer... De mim mesmo, entende? De chegar a um momento de meus dias em que o meu medo de amar acabe e que as palavras bonitas signifiquem algo sólido para mim e que eu esteja pronto para ser amado, sem traumas emergentes.
As rasgaduras em meu corpo me obrigam a ser assim.
Adoraria pegar sua mão e sair por aí sem dívida nenhuma com trauma nem personalidade, apenas você e eu, sair para vermos o tempo passar e nós nele, abraçados e trocando as energias, aquelas que eu preciso para continuar crente no amor! Imagino o vento batendo em nossos sorrisos felizes enquanto andamos pela rua... De mãos dadas. Imagino o frio nos fazendo abraçar-nos mutuamente, a transferir todo o amor, todo o prazer de estarmos juntos.
Porém, creio que você não está ligando muito para isso. Você está satisfeita com o que já tem de mim e sabe que pode ter o que quiser, quando quiser...
Eu adoraria estar com você, se fosse mesmo possível. Por que você simplesmente está aí do outro lado, que não é o meu. E eu estou aqui como todos os outros dias, pensando em como ser mais feliz.
De que me serve a paixão? De alívio ou de sofrimento? De futuro ou de momento? Pus-me a pensar que amar é simples para as pessoas que são amadas! É como dirigir um caminhão, fica bem mais fácil aprender, alguém que já passou pela bicicleta, pela moto, pelo carro, pelo ônibus... É mais simples, admita.
De que me serve a paixão se ela sozinha não faz nada? Mesmo apaixonado, eu ainda tenho que fazer uma série de absurdos para que ela (a dita cuja que está sendo amada) acredite no que estou sentindo... Talvez ela nem acredite e brinque comigo como fez aquela outra... E eu não consigo mais fazer tais coisas. Travei.
Meus pés sentem-se inseguros para caminhar por este caminho estreito. Não me sinto nada protegido. Conquistar alguém não é o meu forte, eu não sei como fazer isso, nem sei se tenho algo que conquiste alguém, tenho? Já houve uns que me disseram ter percebido em mim algo assim, de longe, atraente; não acredito nesses, não acredito em quase ninguém.
De que me serve a paixão? As lamúrias continuarão, continuarei sendo mal-visto, as impressões que causarei serão as mesmas, os julgamentos de valores prevalecerão a meu respeito. O que irá essa tal de Paixão, acrescentar em minha vida? Tem alguém disposto a tentar me mostrar o valor prático de uma paixão? Eu desconheço qualquer um que possa existir.
De alguém que quase morreu de tanto amor que sentia por mim (literalmente), eu recebi ofensas, excessos de indelicadeza, doses cavalares de orgulho, intransigência, fanatismo, exclusivismo. Sentia-me um louco, bicho de sete cabeças era amar daquela forma, mas eu tentei e por mais que eu tivesse a força quase que mundial para resolver meu problema com esta dita paixão, ela não se colocava nas ações como se punha nas palavras. Dizia ter um amor que ia além da vida, mas que me fez morrer a cada dia, até o meu último... Até que cheguei a este estado!
Não vou mais mentir! Preciso de amor como quem precisa de água! Alguém para apertar-me por entre as mãos e que me ame da forma mais translúcida provável... Mas quem? Quem amará a mim? Até hoje eu não consigo entender de onde vinha tanto querer neste caso passado, não sei de onde virá tanto querer numa experiência futura! As minhas veias queimam de necessidade... De um simples abraço de amor, de um beijo doce, sem exageros, de um olhar que fale por si só. Eu preciso de amor, no entanto careço de coragem para acreditar que ele possa me levantar outra vez e me fazer acreditar que ele é bom, careço, careço, careço...
Não aconselho ninguém a entrar no meu mundo! Antes eu até podia fazer isso, mas hoje entendo que existem coisas fortes demais para alguém percebê-las em mim. Entretanto, por conta das vontades, desejos e insistências de alguns, vou aos poucos me apresentando realmente e acabo por sentir que se assustam comigo muito mais de decepção do que de admiração. É simples o motivo; eu sou careta demais, admito.
A pessoa que namorar comigo (se é que existe alguém no mundo com essa pretensão a meu respeito), deve estar pronta para lidar com uma pessoa extremamente romântica, que não discute com absolutamente ninguém sem usar de conceitos pautados na ciência (o que significa que para falar de amor, eu uso a psicologia, a filosofia, a antropologia e todas as “jias” possíveis, mas não é sempre assim); sou uma pessoinha que não bebe, não fuma, não gosta de festa, sou introspectivo em demasia e não gosto de ficar conversando com os amiguinhos da namorada, não me sinto bem... Eles vão falar mal de mim depois e vão dizer a ela aquelas coisas que eu já ouvi antes (deve ser esse o motivo de minha solteirice; será que existe alguém que possa mudar isso?).
Deve ela estar preparada para lidar com um sujeito pontual, genuinamente calmo, hiper-educado, observador, filosófico, sensível a determinadas situações, porém firme em tomadas de decisão nos 45 minutos do segundo tempo com prorrogação! Ainda tem mais: A coitada (nem sei por que estou usando este termo) passará maus bocados e só de pensar nisso já dá dó, pois até hoje poucos dos meus amigos conseguiram passar um dia de passeio comigo sem voltar pra casa revoltados com as coisas absurdas que falam sobre mim, assim abertamente, enquanto passamos pela rua!
O assunto é tão sério que... Sei não! Eu deixei de acreditar em um amor pra mim faz tempo!
Imagina a seguinte cena:
- Papai, Mamãe! Este é Fulano de Tal, meu namorado! – Diz a menina, alegre a ponto de pulular de satisfação.
- Minha filha, - diz o pai – desculpe, mas... Este é o seu namorado?
- Como assim papai?
- Sim, minha filha; eu não acredito que você vá namorar justo uma cara deste tipo, com tantos por aí melhores... Com uma fama melhorzinha que a dele... Você sabe do que vivem chamando ele? A cidade toda fala deste rapaz, quer dizer, nem sei se é rapaz mesmo!
- Papai, assim você ofende o Fulano de Tal! – diz a coitadinha (viu, é nesse sentido que eu falo).
- Bem, você é quem sabe, mas os comentários que ouço sobre este aí, não são bons nem no céu nem no inferno, abre-te o olho. Por mim, eu não sou a favor, mas você já pode decidir sozinha e arcar com as conseqüências depois!
Imaginou? Olha o tamanho do constrangimento que a princesa vai passar! Isso já aconteceu na minha primeira relação séria com alguém. Dá até vontade de rir, mas o caso é sério... Eu não quero mais ser motivo de constrangimento para ninguém que eu chegue a amar. Até porque os familiares não são os únicos a fazerem tal julgamento prévio de valores, os amigos também entram na história e foi assim... Exatamente assim e com mais acréscimos que a minha primeira grande história de amor obstruiu-se em apenas cinco meses!
Mesmo com tantas qualidades que porventura eu tenha, as pessoas desmoronam-me em seus comentários por eu ser da arte e por ter todos os qualitativos inicialmente narrados. O mais conflitante é: eu não sou nada do que dizem, absolutamente nada! Mas saio perdendo, pois a pior coisa é carregar um fardo que não é seu, mas que está com você todo o tempo.
Não aconselho ninguém a me conhecer profundamente! Com ressalva, caso o indivíduo se proponha a assustar-se com as lamúrias que faço! Tenho todas as qualidades que um homem sério poderia ter, mas é impressionante como a minha profissão e o meu jeito de andar conseguem influenciar as pessoas contra mim! Ou seja... Toda uma identidade construída que se mantém de pé apenas quando estou sentado, não posso andar, é automático, andei, a identidade desmorona... E eu sou o lado mais fraco da corda, saio perdendo sempre.